Algodão brasileiro consome menos água, mas uso de agrotóxicos preocupa, indica relatório6 min read

Cultivado em sua maioria em lavouras de sequeiro, o algodão brasileiro se caracteriza por uma menor utilização de água em seu processo produtivo. De outro lado, dados indicam que a cultura é a quarta que mais utiliza agrotóxicos na agricultura brasileira, o que é um ponto de atenção. É o que aponta um relatório feito pela mídia independente Modefica em parceria com o Centro de Estudos de Sustentabilidade da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e a consultoria Regenerate Fashion.

O trabalho, chamado de Fios da Moda, é uma compilação de dados e estudos nacionais e internacionais sobre questões ligadas à sustentabilidade das principais fibras usadas na indústria da moda. A publicação reúne trabalhos feitos ao longo de vários anos. Além do algodão, o relatório analisa também as cadeias produtivas da viscose (tecido à base de fibra de celulose) e do poliéster (de base petroquímica).

A partir dessa revisão da literatura, os pesquisadores propõem uma análise quantitativa e qualitativa dos ciclos de vida dessas fibras. Justificam a produção do relatório no que chamam de necessidade de transformação na indústria têxtil e em um déficit de fontes de dados que sejam abertas e disponíveis. Com isso, a intenção é facilitar o acesso a essas informações sobre impactos sociais e ambientais.

Sobre a cultura de algodão, o relatório aponta que a fibra é mais largamente estudada em seus aspectos sociais e ambientais em comparação com a viscose e o poliéster. Os trabalhos consideram aspectos como mudanças climáticas, consumo de água, toxicidade, uso da terra e uso da energia.

Reunindo informações sobre esses diversos estudos nacionais e internacionais, o relatório Fios da Moda destaca que, em nível global, 53% das lavouras de algodão são irrigadas, o que corresponde a 73% da produção. O consumo médio nessa produção é calculado em cerca de 10 mil litros de água por quilo de fibra produzida. O sistema mais utilizado é de inundação de sulco, considerado menos eficiente.

“As técnicas utilizadas nessa fase podem contribuir para aumentar ou reduzir o consumo de água, por exemplo: estima-se que a irrigação por gotejamento reduza a quantidade de água utilizada em pelo menos 16 a 30% em comparação com os sistemas de inundação ou sulco”, menciona o relatório, com base em trabalho publicado em 2014.

Mas, no Brasil, o consumo de água chega a ser quatro a cinco vezes menor do que o relatado em estudos internacionais. Considerando o ciclo que os responsáveis pelo relatório chamam de berço ao túmulo (do algodão no campo até o produto final), o consumo médio é de 2,33 mil litros por quilo de fibras. Considerando do berço ao portão (apenas o ciclo produtivo da matéria-prima), é ainda menor: 1,7 mil litros por quilo de fibra produzida.

“As características específicas da produção brasileira parecem ser muito influentes para o consumo de água na cultura do algodão”, cita o Fios da Moda. “Predomina no Brasil o cultivo de algodão em sequeiro, sem irrigação artificial. Essa peculiaridade da produção nacional diminui drasticamente o consumo de água nessa etapa do ciclo de vida dos vestuários”, menciona o relatório, citando publicação de 2012.

O Fios da Moda destaca ainda, com base em publicações de 2018 e 2019, que a cadeia produtiva do algodão brasileiro tem investido em rastreabilidade de sua produção. O relatório menciona que, atualmente, o Brasil é o maior fornecedor mundial de algodão de acordo com os critérios de certificação BCI (Better Cotton Initiative). E na safra 2018/2019, 75% da fibra foi produzida de acordo com esses critérios, inseridos no programa Algodão Brasileiro Responsável (ABR).

“O país tem investido em rastreabilidade e certificação para garantir uma produção com menor impacto ambiental. O Brasil é o maior produtor mundial de algodão certificado Better Cotton Initiative (BCI), respondendo por cerca de 30% do volume total de algodão BCI”, diz o Fios da Moda.

Por outro lado, o relatório feito pela Modefica, FGV e Regenerate Fashion alerta para a utilização de agrotóxicos para o controle de pragas e doenças. Mencionando trabalho feito em 2017, o documento destaca que a lavoura da fibra é a quarta maior usuária de produtos químicos na agricultura brasileira. A média calculada naquele ano era de 28 litros por hectare, cerca de 10% do volume total usado no país.

“O impacto do uso de pesticidas é motivo de grande preocupação, devido ao alto potencial de afetar a saúde humana e o meio ambiente”, pontua.

 

Algodão agroecológico

O relatório Fios da Moda menciona trabalhos que são críticos à produção em “sistema de monocultura”. E cita o modo de produção orgânica em sistema agroecológico, que ainda representa uma parcela muito pequena da oferta global da fibra. De acordo com o relatório Organic Cotton Market, de 2019, citado no relatório, a participação é de apenas 0,7% com apenas 356 mil hectares certificados.

Com base em dados de 2018, a Índia respondeu por 47% da produção mundial de algodão certificado como agroecológico, seguido por China (21%), Quirguistão (12%) e Turquia (6%). O Brasil aparecia em 16º no ranking, com participação de 0,01% na produção global. A produção de algodão orgânico naquele ano foi de 22 toneladas.

“É importante considerar que a maior parte da produção brasileira de algodão orgânico está concentrada na região semiárida do país, principalmente nos estados de Paraíba, Ceará, Rio Grande do Norte, Piauí e Pernambuco”, informa o Fios da Moda, citando a Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa).

De acordo com o relatório, a produção agroecológica de algodão orgânico no Brasil tem sido feita por meio de consórcios apoiados por instituições e empresas. E a demanda por esse tipo de produto vem aumentando tanto por compradores já existentes quanto por novas empresas, que tem suas visões de mercado associadas à sustentabilidade.

“Cresce também o interesse pelo cultivo do algodão orgânico de fibra colorida na região Nordeste do Brasil. Nessas condições, além de evitar o uso de fertilizantes sintéticos e pesticidas, a produção dispensa o tingimento artificial e contribui para o meio ambiente”, destaca.

Esse sistema produtivo, menciona o relatório, se caracteriza, principalmente pelo uso de fertilizantes orgânicos, controle biológico de pragas, consórcio com outras culturas e colheita manual.

Estudo de 2014, encomendado pela Textile Exchange – e citado no relatório Fios da Moda – com base na avaliação do ciclo de vida do algodão na Índia, Turquia, China, Tanzânia e Estados Unidos, indicou uma redução de 91% no consumo de água e de 62% no de energia em comparação com o algodão convencional. Mas a produtividade foi de 1,84 tonelada por hectare.

FONTE: GLOBO RURAL

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